Filed under: Paranóias da Mami
Mamãe, como toda mulher madura, bem resolvida e ryca, vai ao psicólogo. E este homem, que dispõe suas orelhas e um caderninho de anotações uma vez por semana, prega algumas peças em sua vida, notáveis de postagens aqui.
A primeira sugestão para desarraigar mamãe de certas coisas, classificadas por ele como banais (como ligar para o que os outros pensam) foi que ela saísse na rua; com um pequeno detalhe.
- Como é?!
- Sim, sair com uma camisa de botão ao avesso. É simples.
- Simples porque não é o senhor.
- Eu vou com você. Também viro a minha ao avesso.
- Hummm. Posso pensar.
- Mas você vai ter de ir cumprimentando as pessoas pelo caminho.
- Ahhhh não. Aí não.
A segunda foi comprar um livro. Fácil.
- Recomendo um livro. Está no bilhetinho.
- Ok – lê o bilhetinho – Mas… Isso é sério?
- É sério. E é você que tem de ir lá e pedir o livro na loja. Nada de encomendar ou pedir a alguém.
- E você me deixa escolha?
Chegando na loja: ‘Ótimo. Tem pouca gente. Vou entregar o bilhetinho à moça, ela vai procurar, me entregar e posso sair daqui bem rápido.’ Num tom quase inaudível chegou pra moça que aparentava a vendedora mais discreta da loja e sussurrou quase:
- Moça, por favor. Eu preciso desse livro aqui… – O bilhetinho.
- Ah sim. – Puxa o papelzinho – Vou verificar pra senhora.
O tom de voz dela era preocupante: ela não fez questão de responder baixinho. Tudo bem, era o tom normal. Mas dali pra um grito a linha era tênue. A moça anda pra cá, anda pra lá, consulta o computador. Inadvertidamente pára e, antes que mamãe pudesse fazer qualquer movimento que interrompesse o holocausto que estava por vir, ela vira pro andar de cima e grita:
- Ô MARCEEEELO. VÊ SE TEM AÍ EM CIMA O LIVRO ‘SEXO PARA MULHERES DE FINO TRATO’!
E, como se não bastasse, enquanto várias pessoas que surgiram do nada nesse ínterim procuravam pelo dono do grito, a moça se volta pra mamãe, absorta num colorido livro de Geografia, e lhe entrega naquele mesmo tom de voz.
- Aqui minha senhora.
- OBRIGADA.
Mamãe embala o livro debaixo do braço torcendo para que ninguém tivesse visto a entrega do contrabando, e afirma mentalmente pra si mesma que ninguém se preocupa com o que ela está levando com tanto furor. Afirma até demais.
Encaminha-se com habilidade para o caixa com a estratégia de quem não quer ser visto, e fica atrás de um senhor que comprava um livro simpático que, ‘oh que inveja’, não era de assunto tão peculiar. A guerra estava acabando. ‘Eu consigo, eu consigo. É só um livro. Vou pagar e ir embora. É só.’
- Pode passar senhora.
- Desculpe, o que?
- A senhora, pode passar na minha frente.
- Não, não. Não precisa. Estou sem pressa.
- Não, que isso, as damas primeiro.
- Não senhor, eu insisto, não precisa.
- Ah, por favor…. pode ir.
‘Tudo bem, essa eu posso vencer. Vou colocar o livro embalado e entregar a notinha com o preço e ela não vai precisa….’ Tarde. Muito tarde. A moça já tinha tirado da sacola num habilidade incrível, mas impressionantemente ela foi descuidada em deixar o livro virado pra cima, no balcão. Ah, por favor, o que era o moço de trás esgueirando o pescoço pra ver a capa?! Mas que droga! So uma mulher de fino trato. Maldito tabu. Espero que seja um Best-seller.
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