Janelinha


Desce do salto!
20 dezembro 2010, 10:15
Filed under: Paranóias da Mami

Mamãe, como toda mulher madura, bem resolvida e ryca, vai ao psicólogo. E este homem, que dispõe suas orelhas e um caderninho de anotações uma vez por semana, prega algumas peças em sua vida, notáveis de postagens aqui.

A primeira sugestão para desarraigar mamãe de certas coisas, classificadas por ele como banais (como ligar para o que os outros pensam) foi que ela saísse na rua; com um pequeno detalhe.

- Como é?!
- Sim, sair com uma camisa de botão ao avesso. É simples.
- Simples porque não é o senhor.
- Eu vou com você. Também viro a minha ao avesso.
- Hummm. Posso pensar.
- Mas você vai ter de ir cumprimentando as pessoas pelo caminho.
- Ahhhh não. Aí não.

A segunda foi comprar um livro. Fácil.

- Recomendo um livro.  Está no bilhetinho.
- Ok – lê o bilhetinho – Mas… Isso é sério?
- É sério. E é você que tem de ir lá e pedir o livro na loja. Nada de encomendar ou pedir a alguém.
- E você me deixa escolha?

Chegando na loja: ‘Ótimo. Tem pouca gente. Vou entregar o bilhetinho à moça, ela vai procurar, me entregar e posso sair daqui bem rápido.’ Num tom quase inaudível chegou pra moça que aparentava a vendedora mais discreta da loja e sussurrou quase:

- Moça, por favor. Eu preciso desse livro aqui… – O bilhetinho.
- Ah sim. – Puxa o papelzinho – Vou verificar pra senhora.

O tom de voz dela era preocupante: ela não fez questão de responder baixinho. Tudo bem, era o tom normal. Mas dali pra um grito a linha era tênue. A moça anda pra cá, anda pra lá, consulta o computador. Inadvertidamente pára e, antes que mamãe pudesse fazer qualquer movimento que interrompesse o holocausto que estava por vir, ela vira pro andar de cima e grita:

- Ô MARCEEEELO. VÊ SE TEM AÍ EM CIMA O LIVRO ‘SEXO PARA MULHERES DE FINO TRATO’!

E, como se não bastasse, enquanto várias pessoas que surgiram do nada nesse ínterim procuravam pelo dono do grito, a moça se volta pra mamãe, absorta num colorido livro de Geografia, e lhe entrega naquele mesmo tom de voz.

- Aqui minha senhora.
- OBRIGADA.

Mamãe embala o livro debaixo do braço torcendo para que ninguém tivesse visto a entrega do contrabando, e afirma mentalmente pra si mesma que ninguém se preocupa com o que ela está levando com tanto furor. Afirma até demais.

Encaminha-se com habilidade para o caixa com a estratégia de quem não quer ser visto, e fica atrás de um senhor que comprava um livro simpático que, ‘oh que inveja’, não era de assunto tão peculiar. A guerra estava acabando. ‘Eu consigo, eu consigo. É só um livro. Vou pagar e ir embora. É só.’

- Pode passar senhora.
- Desculpe, o que?
- A senhora, pode passar na minha frente.
- Não, não. Não precisa. Estou sem pressa.
- Não, que isso, as damas primeiro.
- Não senhor, eu insisto, não precisa.
- Ah, por favor…. pode ir.

‘Tudo bem, essa eu posso vencer. Vou colocar o livro embalado e entregar a notinha com o preço e ela não vai precisa….’ Tarde. Muito tarde. A moça já tinha tirado da sacola num habilidade incrível, mas impressionantemente ela foi descuidada em deixar o livro virado pra cima, no balcão. Ah, por favor, o que era o moço de trás esgueirando o pescoço pra ver a capa?! Mas que droga! So uma mulher de fino trato. Maldito tabu. Espero que seja um Best-seller.



De papel, pohha!
4 julho 2010, 10:03
Filed under: Eu, Janela.

Restaurante chique. Jantar de família. Daqueles em que tudo é frescura, tem garfinho pequeno e grande de um lado, e faquinha grande e pequena do outro. Mas quando a gente é criança é tudo igual: a fome não discrimina o tamanho das ferramentas (se é que você me entende).

Pedi logo o macarrão mais cheio de molho (quase uma sopa, prefiro molho à massa que vem junto); vermelho, é claro, toda criança tem uma capacidade incrível de escolher o que é mais propício a fazer bagunça.

Concludentemente, fiz a maior zorra na boca. Mas o guardanapo era de pano, como eu ia sujar aquele pedaço quase santificado de uma seda intocada, limpar a minha boca com holocaustos de molho e, ainda por cima, voltar com ela pra cima do meu vestido?! Apesar da minha idade, sempre tive um senso muito bom de organização e limpeza. (Eu sou um prodígio mesmo! uiasdhisudh) Chamei o garçom:

- Moço, eu preciso de um guardanapo.
- Mas este no colo da Senhorita, não lhe serve? – todo pomposo.
- Não, moço. Não quero sujar esse, ok? Tá muito branquinho. Faz o seguinte traz aqueles quadradinhos, sabe? Estilo boteco mesmo.

O moço olha estranho, e sai pra cozinha. (Estranho é ele me chamando de Senhorita). Ele volta com um guardanapo.
- Peloamordedeus!
- Que foi Nicoly?
- Ele trouxe outro de pano.



Cidadezinha
4 julho 2010, 09:38
Filed under: Paisagens Aleatórias

Vovó na fila para passagem de ônibus. Chegou a vez do homem à frente dela.
Ela ouve a conversa entre ele e o guichê:
- Quero uma passagem para o fim do mundo!
- E onde seria isso, Senhor? – a moça pergunta de volta.
- Ué, Muniz Freire! Não conhece?
Rola umas risadinhas, ele compra a passagem e é a vez da vovó.
- Uma passagem, por favor.
- Pra onde Senhora?
- Pro fim do mundo também! Eu moro lá, porcaria!

E é verdade.



Apimentando a vida
28 maio 2010, 10:28
Filed under: Eu, Janela., Paranóias da Mami, Piloto de fogão!

Almoço. Lá em casa é tudo sem sal. Papai e Carol tem pedras nos rins e quem sofre é meu arroz insosso. Já não aguento mais comida sem sal. Se tem uma coisa que eu trouxe comigo da faculdade incompleta de Gastronomia, é que o sal ABRE o sabor da comida. Vendo por esse ângulo, a comida lá de casa anda trancada há um bom tempo.

Semana passada, Vera anuncia:
- Sua mãe tá querendo que eu pare de usar Kaldo Knor na comida…

HOLOCAUSTO. Bifes sairão correndo. Se não há sal e não há Knor, até os cachorros daqui de casa fugirão. O que será de uma picanha só no alho?

OK, va lá, picanha é bom até quando passa do “passou do ponto“, comprovei isso quando flambei sem querer seis bifes escolhidos a dedo pelo açougueiro; feio, mas eficiente; do supermercado que a gente frequenta. Mas isso não vem ao caso, carne sem sal não é carne. É chiclete de fibras.

Para onde irá todo o açafrão, cominho, noz moscada, pimenta-do-reino (sim, está tudo lá junto e misturado) se não para aquele quadradinho dourado, que se entrega com uma facilidade incrível a um molho vermelho, um bechamél, ou até mesmo… MOLHO MADEIRA! Meu Deus, deve ser mesmo o fim dos tempos. Molho Madeeeeira sem tempero.

Sinto que terei de travar mais uma batalha aqui em casa pelos prazeres simples da vida. Ou pelo menos MEUS simples prazeres. A guerra do sal eu já perdi, mas a do tempero acaba de começar.



Patavinas 2
24 abril 2010, 21:45
Filed under: Paisagens Aleatórias

Chovendo. Muito. André (o que disse que carro tem capuz, e não capô) e Nicoly no carro.
- Ai André, fecha essa janela que vai chover aqui em mim!
- Nem! Dá pra deixar aberta, tá chovendo de cima para baixo

É mesmo?




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